Doença do Carrapato (Babesiose e
Ehrlichiose Canina)
A doença do carrapato é um termo
popularmente empregado para descrever um grupo de enfermidades que
acometem somente os cães, sendo as mais comuns a Babesiose
e a Ehrlichiose. São causadas por dois tipos de hematozoários
(parasitas sanguíneos): Babesia e Ehrlichia. Essas doenças
não têm caráter zoonótico, sendo assim,
não são transmissíveis ao ser humano.
Segundo a Parasitologia Veterinária, ciência biológica
que estuda os seres vivos do Reino Animal, os parasitos necessitam
espoliarem outros seres vivos para poderem sobreviver tais como
os hematozoários que são organismos unicelulares (protozoários)
que parasitam as células do sangue de seus hospedeiros.
Existem outros tipos de protozoários que acometem o cão,
mas devido a sua real importância dentro da clínica
veterinária, destacam-se a Babesia e a Ehrlichia como sendo
os parasitas de células sanguíneas do cão que
mais causam danos para estes animais.
A seguir, serão descritos individualmente os aspectos mais
importantes de cada uma das doenças em questão:
Babesiose ou Piroplasmose –
é uma enfermidade causada por um protozoário conhecido
como Babesia canis, também denominada de Piroplasma canis.
É um parasita que se encontra no sangue dentro dos eritrócitos
(glóbulos vermelhos), onde se alimentam de seu conteúdo
(a hemoglobina), em número de até 16 protozoários
numa única célula do sangue circulante. Seu período
de incubação varia de 2 dias a 2 semanas, onde não
se tem a evidência da Babesia no sangue e o animal não
apresenta sintomas. Várias espécies de carrapatos
estão envolvidas como hospedeiro intermediário, porém,
o carrapato marrom, que é específico do cão
(Rhipicephalus sanguineus), é o principal vetor desta doença
no Brasil. Somente as fêmeas de carrapato picam o cão
enfermo, se infectam, e picam outros cães sadios transmitindo
os protozoários. Estando no interior dos eritrócitos,
estes se multiplicam causando a hemólise destas células,
ou seja, a sua ruptura (momento em que ocorre a febre), invade novos
eritrócitos e isso se torna um ciclo. O animal começa
a ter, como conseqüência, uma anemia do tipo hemolítica
e um quadro de icterícia hemolítica dada pela presença
do pigmento vermelho do sangue (hemoglobina), liberada pela hemólise,
dissolvida no próprio sangue. O cão apresentará
os seguintes sinais clínicos: anorexia, febre recorrente,
apatia, icterícia ou palidez das mucosas, típico de
um cão com anemia (do tipo macrocítica normocrômica).
Menos comumente, pode ocorrer hiperexcitabilidade nervosa, associada
a babesiose cerebral, causada pelo acúmulo de eritrócitos
nos capilares do cérebro. O tratamento é eficaz e
a mortalidade é baixa quando o cão é tratado
a tempo e convenientemente. Nada impede do cão ter a doença
novamente se for picado por outros carrapatos infectados. Os animais
ficam expostos a doença em lugares onde há muitos
carrapatos, como as florestas, principalmente na época da
primavera e outono, quando ocorre a atividade máxima dos
carrapatos.
Ehrlichiose – é
uma doença infecciosa grave que afeta os cães, causada
por um protozoário do gênero Ehrlichia, sendo a principal
espécie a Ehrlichia canis. O principal vetor desta enfermidade
também é o carrapato marrom do cão (Rhipicephalus
sanguineus), não descartando a vetoração por
outros gêneros de carrapatos. A transmissão também
ocorre pela inoculação de sangue pelo carrapato proveniente
de um cão infectado para um sadio. Porém, transfusões
sanguíneas, agulhas ou instrumentais contaminados também
poderão causar a infecção, tanto de Babesia
quanto de Ehrlichia, porém sendo raro este acontecimento.
Este protozoário infecta os leucócitos polimorfonucleares
(glóbulos brancos do sangue), principalmente os linfócitos
e monócitos, que são responsáveis pela defesa
do organismo. A infecção intercorrente com a Babesia
canis pode levar o cão a uma ictérica acentuada. A
doença pode se apresentar de três formas: aguda (início
da infecção), subclínica (normalmente assintomática)
e crônica (infecções persistentes). Na fase
aguda, a doença é caracterizada pelos seguintes sinais
clínicos: febre (39,5°C – 41,5°C), perda de
apetite, perda de peso e fraqueza muscular. Pode ocorrer ainda a
perda total do apetite, secreções nasais, depressão,
sangramento pela pele, urina e nariz, vômito, dificuldade
respiratória e edema dos membros, porém sendo estes
sinais menos freqüente. A fase subclínica geralmente
é assintomática. A fase crônica é caracterizada
pela não eliminação da Ehrlichia pelo sistema
imune do animal atenuando os mesmos sinais da fase aguda e comprometendo
o sistema imunológico do animal pela destruição
destas células de defesa (leucopenia), levando a quadros
de infecções secundárias como pneumonia, diarréia,
entre outras. O prognóstico depende da fase que for diagnosticada,
onde as chances de recuperação do animal com o tratamento
conveniente serão mais eficazes se diagnosticado no início.
Trombocitopenia cíclica infecciosa
no cão – é uma doença causada
por uma espécie de Ehrlichia, a Ehrlichia platys. Sua transmissão
ocorre da mesma forma que a Ehrlichia canis, porém, são
diferenciadas apenas por serem um tipo de protozoário específico
de plaquetas (células responsáveis pela coagulação
do sangue), onde o animal também pode apresentar sangramentos
crônicos devido ao baixo nível destas células
(trombocitopenia) que são destruídas por estes organismos
da mesma forma que nas outras doenças.
A Babesia canis, Ehrlichia canis e a Ehrlichia platys podem ocorrer
simultaneamente tendo em vista que são transmitidas pelo
mesmo vetor, sendo estes os casos de maior gravidade.
Diagnótico – O diagnóstico
da Babesiose, Ehrlichiose e da Trombocitopenia cíclica infecciosa
do cão é realizado da mesma forma: uma boa anamnese,
exame físico e pela sintomatologia clínica. Entretanto,
só poderá haver confirmação por exames
laboratoriais. A coleta de sangue destes animais (principalmente
de ponta de orelha), onde uma gota é o suficiente para a
confecção de um esfregaço sanguíneo
que após ser seco e fixado pelo álcool metílico,
é corado com o uso de corantes hematológicos. Levando-se
esta lâmina ao microscópio ótico com a utilização
do maior aumento da objetiva (100x) e da técnica de imersão
serão vistos os seguintes achados: na Babesiose, os protozoários
são vistos como corpúsculos múltiplos, tipicamente
piriformes (na forma de gota), no interior dos eritrócitos,
dispostos num ângulo característico, com as extremidades
estreitas opostas. Deve ser levada em consideração
que, uma vez cessada a fase febril aguda, freqüentemente é
impossível encontrar esses protozoários, pois são
rapidamente removidas da circulação; a Ehrlichia canis
é visualizada através de mórulas no interior
dos leucócitos e a Ehrlichia platys também se apresenta
como mórulas, porém no interior das plaquetas. A Ehrlichiose
também pode ser diagnosticada através de testes imunológicos
mais sofisticados onde se utiliza o soro do animal para a sua realização.
Este tipo de exame requer a utilização de laboratórios
especializados. Entretanto, é o método mais seguro
e eficiente para se confirmar o diagnóstico desta doença.
Profilaxia – Deve-se prevenir
estas doenças em canis ou em locais de grande concentração
de animais. Como não existe vacina para nenhuma delas, a
prevenção é realizada através do tratamento
dos animais enfermos e, principalmente pelo controle do vetor dessas
doenças, o carrapato. Pode ser utilizado carrapaticida ambiental
e de uso tópico para os animais e evitar expor os mesmos
em áreas de risco onde habitualmente existem carrapatos.
Dr. Anderson Christian Rodrigues CRMV-RJ 6629
Responsável pelo setor de Patologia Clinica do Centro Veterinário
Colina
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